Econômica
Viabilidade financeira, alocação do capital e controle da exposição a risco. No caso, o limite de crédito é decisão econômica cuja violação gera perda potencial.
Material de leitura sobre princípios e estruturas de governança corporativa, governança de dados, arquitetura corporativa como instrumento de mapeamento dos sistemas e dos dados da organização, e modelagem relacional como meio de impor as regras de governança no sistema de gestão.
A Aula 6 tratou de quem participa das decisões do projeto e com que legitimidade. Este encontro trata da estrutura que torna essas decisões verificáveis: os princípios e controles pelos quais a organização é dirigida, a atribuição de responsabilidade sobre os dados que sustentam cada decisão e o mapa que relaciona processos, sistemas e dados.
O material percorre quatro assuntos em sequência. A governança corporativa estabelece por que a organização precisa prestar contas de suas decisões. A governança de dados estabelece quem responde por cada dado e como sua qualidade é medida. A arquitetura corporativa, ferramenta central do profissional de Sistemas de Informação nesse contexto, mapeia todos os sistemas corporativos e seus dados. O modelo relacional, por fim, é o nível da arquitetura de dados em que as regras de governança passam a ser impostas pelo próprio banco de dados.
A leitura precede o encontro. A atividade da segunda metade exige que o grupo desenhe o recorte da arquitetura de um processo do parceiro, elabore o modelo relacional das entidades envolvidas e atribua responsáveis a cada uma. Os três artefatos alimentam o plano de cutover e os testes integrados da Sprint 4.
Cliente com três cadastros e sem responsável designado. Na preparação da carga de dados mestres para a virada do sistema de gestão, a equipe consolida os clientes a partir de três origens: a planilha da área comercial, a planilha do financeiro e a base do sistema legado de faturamento. Um mesmo CNPJ aparece com três códigos, duas razões sociais e limites de crédito de R$ 50 mil, R$ 120 mil e R$ 200 mil. No legado, o CNPJ não é campo único. Nenhum documento indica qual origem é a fonte autorizada do cadastro, e nenhuma pessoa responde pelo limite de crédito. A equipe escolhe o maior valor para não bloquear pedidos. Dois meses após a virada, a auditoria interna questiona um faturamento acima da exposição aprovada pela diretoria financeira.
O caso contém quatro ausências, uma para cada assunto do encontro: a alçada de crédito sem titular declarado, o cadastro sem dono nem regra de qualidade, a falta de mapa com o sistema de registro do cliente e um esquema de dados que não impedia a duplicidade. Cada bloco do material retoma uma delas.
O Instituto Brasileiro de Governança Corporativa define governança corporativa como o sistema formado por princípios, regras, estruturas e processos pelo qual as organizações são dirigidas e monitoradas, com vistas à geração de valor sustentável para a organização, para seus sócios e para a sociedade em geral. Em formulação mais ampla, trata-se do conjunto de processos, costumes, políticas, leis, regulamentos e instituições que regulam a maneira como uma empresa é dirigida, administrada ou controlada, abrangendo as relações internas à firma e seu ambiente institucional.
A necessidade de governança decorre da separação entre propriedade e controle. Quem detém o capital, o principal, delega a gestão a administradores, os agentes, cujos interesses não coincidem necessariamente com os seus. Jensen e Meckling descreveram essa relação como problema de agência: o agente dispõe de mais informação que o principal e pode tomar decisões em benefício próprio. Os mecanismos de governança reduzem essa assimetria por meio de estruturas de supervisão, de regras de decisão e de registro verificável do que foi decidido e executado.
A relação de agência se reproduz no interior da organização. A diretoria delega a gerentes, que delegam a analistas, e cada delegação cria nova assimetria de informação. O sistema de gestão é um dos principais instrumentos para reduzi-la, porque registra quem executou cada operação, quando e com que valor.
A diretoria financeira, na posição de principal, aprovou uma exposição de crédito. A equipe de carga, na posição de agente, decidiu outra, sem mandato para isso e sem registro da escolha. A auditoria só detectou a divergência porque a aprovação original estava documentada fora do sistema.
O Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa do IBGC, em sua 6ª edição, organiza a governança em cinco princípios. Cada um se verifica, no sistema de gestão, por um conjunto de controles.
| Princípio | Enunciado | Manifestação no sistema de gestão | Controle que o verifica |
|---|---|---|---|
| Integridade | Conduta coerente com a ética e com os valores declarados, com repúdio a práticas ilícitas. | Regra parametrizada igual à política aprovada, sem contorno por fora do sistema. | Procedimento de aprovação vinculado à alçada formal. |
| Transparência | Disponibilização às partes interessadas das informações de seu interesse, além das exigidas por lei. | Relatórios gerados a partir de dado único e rastreável. | Fonte autorizada declarada para cada dado publicado. |
| Equidade | Tratamento justo e isonômico de sócios e demais partes interessadas. | Mesma regra de crédito, preço e prazo para clientes nas mesmas condições. | Condições comerciais por grupo, e não por negociação avulsa. |
| Responsabilização | Prestação de contas clara, compreensível e tempestiva, com assunção das consequências dos atos e omissões. | Registro de quem alterou cada campo crítico, quando e qual era o valor anterior. | Trilha de auditoria e perfil de autorização por usuário. |
| Sustentabilidade | Zelo pela viabilidade econômico-financeira e redução das externalidades negativas. | Dados de fornecedor e de produto suficientes para relatar impacto e conformidade. | Campos obrigatórios de conformidade no cadastro. |
A 5ª edição do código apresentava quatro princípios: transparência, equidade, prestação de contas e responsabilidade corporativa. A edição vigente acrescenta a integridade e desdobra a responsabilidade corporativa em sustentabilidade. A literatura e parte dos autoestudos ainda empregam a formulação anterior, e as duas se correspondem.
Um princípio de governança que não se traduz em controle não admite verificação. A integridade de uma regra de crédito verifica-se pelo procedimento de aprovação que impede o faturamento acima do limite; a responsabilização verifica-se pela trilha que registra quem alterou o limite. Nesse ponto, a governança corporativa passa a depender da qualidade e da governança dos dados.
A governança corporativa constitui um dos instrumentos determinantes do desenvolvimento sustentável em suas três dimensões. A organização que não registra nem supervisiona suas decisões não consegue demonstrar desempenho em nenhuma delas.
Viabilidade financeira, alocação do capital e controle da exposição a risco. No caso, o limite de crédito é decisão econômica cuja violação gera perda potencial.
Efeito das operações sobre recursos, emissões e descarte. Depende de dados de produto, fornecedor e movimentação que o sistema de gestão registra.
Efeito sobre empregados, clientes, fornecedores e comunidade, inclusive o tratamento dos dados pessoais dessas pessoas.
A agenda conhecida pela sigla ESG (ambiental, social e governança) inclui a governança como dimensão própria, porque torna as outras duas mensuráveis e auditáveis. Relatórios de sustentabilidade dependem de dados com a mesma qualidade exigida dos demonstrativos financeiros: origem conhecida, responsável designado e regra de cálculo declarada.
O sistema de governança distribui papéis entre agentes com funções complementares. A separação entre quem decide, quem executa e quem verifica é o fundamento de toda estrutura de controle.
| Agente | Função | Relação com o sistema de gestão |
|---|---|---|
| Sócios e assembleia | Elegem o conselho e aprovam contas e decisões estruturais. | Recebem demonstrações cuja origem está nos registros do sistema. |
| Conselho de administração | Define a estratégia, elege e supervisiona a diretoria. | Aprova políticas, como a de crédito, que o sistema deve materializar. |
| Diretoria executiva | Executa a estratégia e responde pelos controles internos. | Designa donos de processo e de dado e aprova alçadas. |
| Auditoria interna | Avalia de forma independente a eficácia dos controles. | Examina trilhas, perfis de acesso e aderência da parametrização à política. |
| Auditoria independente e conselho fiscal | Opinam sobre as demonstrações e fiscalizam os administradores. | Testam por amostragem a confiabilidade dos registros. |
O COSO define controle interno como processo conduzido pela administração para fornecer segurança razoável quanto ao alcance dos objetivos de operação, divulgação e conformidade, e o organiza em cinco componentes: ambiente de controle, avaliação de riscos, atividades de controle, informação e comunicação, e atividades de monitoramento. O componente de informação e comunicação depende diretamente da qualidade dos dados.
O modelo de três linhas do Instituto dos Auditores Internos (IIA, 2020) distribui a responsabilidade pelo controle. A primeira linha é a gestão que opera os processos e os controles do dia a dia. A segunda linha apoia e monitora risco, conformidade e qualidade, e é nela que se situam, com frequência, as funções de governança de dados. A terceira linha é a auditoria interna, que avalia as duas primeiras com independência e se reporta ao órgão de governança.
A mesma pessoa não deve cadastrar o cliente, aprovar seu limite de crédito e registrar a venda. O sistema de gestão implementa a segregação por perfis de autorização, e a matriz de conflitos de acesso verifica se algum usuário acumula funções incompatíveis.
O controle preventivo impede o erro na origem, como o bloqueio do pedido acima do limite. O controle detectivo identifica o erro depois, como o relatório de exceções revisado semanalmente. A governança prefere o preventivo e mantém o detectivo como segunda barreira.
A governança de TI é a parte da governança corporativa que dirige e controla o uso atual e futuro da tecnologia da informação. A norma ISO/IEC 38500 atribui ao órgão de governança três tarefas, avaliar, dirigir e monitorar, e seis princípios: responsabilidade, estratégia, aquisição, desempenho, conformidade e comportamento humano.
O COBIT 2019, da ISACA, distingue governança de gestão. A governança avalia necessidades, estabelece direção e monitora desempenho, e cabe ao conselho. A gestão planeja, constrói, executa e monitora atividades alinhadas à direção estabelecida, e cabe à diretoria. O modelo organiza quarenta objetivos em cinco domínios.
| Domínio do COBIT 2019 | Natureza | Objetivos relacionados a este encontro |
|---|---|---|
| EDM — Avaliar, Dirigir e Monitorar | Governança | Garantia de benefícios, otimização de riscos e engajamento das partes interessadas. |
| APO — Alinhar, Planejar e Organizar | Gestão | Arquitetura corporativa gerenciada (APO03) e dados gerenciados (APO14). |
| BAI — Construir, Adquirir e Implementar | Gestão | Mudança organizacional, aceite e transição de TI, e gestão da configuração. |
| DSS — Entregar, Servir e Suportar | Gestão | Operações, serviços de segurança e controles de processo de negócio. |
| MEA — Monitorar, Avaliar e Analisar | Gestão | Desempenho, sistema de controle interno e conformidade com requisitos externos. |
A presença da arquitetura corporativa e dos dados como objetivos próprios do domínio APO indica o lugar que ambos ocupam na governança de TI: são instrumentos de alinhamento e planejamento, anteriores à construção e à operação dos sistemas.
O DAMA-DMBOK define governança de dados como o exercício de autoridade, controle e tomada de decisão compartilhada, compreendendo planejamento, monitoramento e aplicação, sobre a gestão dos ativos de dados. A governança de dados define as funções, responsabilidades e processos que garantem que os dados sejam confiáveis e utilizáveis por toda a organização, com pessoas identificadas e posicionadas como responsáveis por prevenir e corrigir problemas com os dados.
Decide sobre o dado: quem responde por ele, que política e que padrão se aplicam, que regra de qualidade vale e como se resolve a disputa entre áreas. O DAMA-DMBOK compara essa função à do legislador e à do auditor.
Executa sobre o dado conforme o que foi decidido: modela, cadastra, integra, carrega, protege, corrige e arquiva. É exercida por quem opera processos e sistemas.
O DAMA-DMBOK organiza a gestão de dados em onze áreas de conhecimento: a governança de dados, ao centro, e dez áreas dispostas em torno dela — arquitetura de dados, modelagem e projeto de dados, armazenamento e operações, segurança, integração e interoperabilidade, gestão de documentos e conteúdo, dados mestres e de referência, data warehousing e business intelligence, metadados e qualidade de dados. A disposição expressa que nenhuma dessas áreas se sustenta sem decisão prévia sobre responsabilidade.
| Instrumento | Conteúdo | Exemplo aplicado ao cadastro de clientes |
|---|---|---|
| Política | Diretriz aprovada pela direção, de cumprimento obrigatório. | Todo cliente ativo possui limite de crédito aprovado pela diretoria financeira. |
| Padrão | Regra detalhada que operacionaliza a política. | CNPJ armazenado em catorze posições, sem máscara: doze alfanuméricas (raiz e ordem), conforme o formato adotado a partir de julho de 2026 pela IN RFB nº 2.229/2024, e dois dígitos verificadores numéricos validados. |
| Glossário de negócio | Definição única de cada termo, com responsável. | "Cliente ativo" é o cliente com ao menos uma nota fiscal emitida nos últimos doze meses. |
| Catálogo de dados | Inventário de onde cada dado está, sua origem e seu uso. | O limite de crédito reside no cadastro de clientes do sistema de gestão e é lido pelos módulos de vendas e financeiro. |
| Indicador de qualidade | Medida periódica da aderência às regras. | Percentual de clientes ativos com revisão de crédito vencida. |
Os dados de um sistema de gestão pertencem a classes com exigências de governança distintas. A distinção determina onde concentrar o esforço de controle.
| Classe | Característica | Exemplos | Exigência de governança |
|---|---|---|---|
| Dado mestre | Entidade de negócio estável e compartilhada por vários processos. | Parceiro de negócios, item, conta contábil, centro de custo. | Dono designado, fonte autorizada única, aprovação de alteração. |
| Dado transacional | Registro de evento de negócio, com data e valor, que referencia dados mestres. | Pedido de venda, nota fiscal, lançamento contábil, movimento de estoque. | Integridade referencial, imutabilidade após fechamento, trilha de auditoria. |
| Dado de referência | Domínio de valores admitidos, frequentemente definido por entidade externa. | Unidade federativa, NCM, CFOP, moeda, condição de pagamento. | Lista controlada, versão vigente e origem declarada. |
| Metadado | Dado que descreve outro dado. | Definição de campo, tipo, origem, responsável, data de carga. | Glossário e catálogo atualizados. |
Entende-se por fonte autorizada, ou sistema de registro, o sistema cujo valor prevalece quando o mesmo dado existe em mais de um lugar. A gestão de dados mestres consolida as versões de uma entidade em um registro de referência, que reúne o valor de maior confiança de cada atributo a partir de regras de sobrevivência declaradas.
| Atributo do cliente | Origem que prevalece | Regra de sobrevivência | Quem aprova a divergência |
|---|---|---|---|
| CNPJ e razão social | Cadastro da Receita Federal | Valor oficial substitui os demais. | Curador do cadastro |
| Endereço de entrega | Planilha comercial | Registro de atualização mais recente. | Curador do cadastro |
| Limite de crédito | Ata do comitê de crédito | Somente valor aprovado formalmente; nunca o maior nem o mais recente. | Dono do dado: diretoria financeira |
| Condição de pagamento | Planilha do financeiro | Valor associado ao limite aprovado. | Dono do dado: diretoria financeira |
A equipe aplicou ao limite de crédito a regra do maior valor, adequada talvez a um atributo operacional, e inadequada a um atributo que expressa decisão de risco. Faltou a regra de sobrevivência por atributo, declarada e aprovada pelo dono do dado.
A governança de dados só produz efeito quando cada responsabilidade tem titular nomeado. Os papéis a seguir são os de uso mais difundido, e suas denominações variam entre organizações.
Gestor da área de negócio que responde pelo dado perante a organização. Aprova definição, regra de qualidade, regra de sobrevivência e concessão de acesso. Não opera o dado no dia a dia.
Especialista da área de negócio, também chamado data steward. Redige a regra de qualidade, monitora o indicador, trata a não conformidade e mantém a definição do glossário.
Equipe de tecnologia que guarda e protege o dado: administra banco, cópia de segurança, acesso técnico e execução da carga, conforme o decidido pelo dono.
Instância que aprova políticas, prioriza iniciativas e arbitra o conflito quando duas áreas reivindicam o mesmo dado ou discordam de sua definição.
| Atividade sobre o cadastro de clientes | Executa | Aprova | Consulta | Informa |
|---|---|---|---|---|
| Definir a regra de qualidade do limite de crédito | Curador | Dono do dado | Auditoria interna | Área comercial |
| Criar ou alterar cliente no sistema | Analista de cadastro | Curador | Área comercial | Financeiro |
| Alterar limite de crédito | Analista de crédito | Dono do dado | Curador | Área comercial |
| Executar a carga de clientes na virada | Custodiante | Dono do dado | Curador | Comitê do projeto |
A atribuição de papéis é suficiente quando, diante de um valor incorreto, é possível nomear em minutos quem deveria tê-lo impedido, quem deve corrigi-lo e quem aprova a correção. No caso deste encontro, nenhuma das três perguntas tinha resposta.
Qualidade de dados é o grau em que os dados atendem ao uso pretendido. A afirmação genérica de que um dado é de boa qualidade não admite verificação; as dimensões a seguir decompõem a qualidade em propriedades mensuráveis, cada uma expressa por regra com limiar.
| Dimensão | Pergunta | Regra mensurável | Meio de verificação |
|---|---|---|---|
| Unicidade | Cada entidade é registrada uma única vez? | Zero CNPJ repetido entre clientes ativos. | Restrição de unicidade e consulta de agrupamento. |
| Completude | Os atributos obrigatórios estão preenchidos? | 100% dos clientes ativos com limite de crédito e condição de pagamento. | Restrição de não nulidade e contagem de ausentes. |
| Validade | O valor respeita domínio, formato e faixa? | CNPJ com dígitos verificadores válidos no cálculo alfanumérico; limite maior ou igual a zero. | Restrição de verificação e rotina de validação. |
| Exatidão | O valor corresponde à realidade ou à fonte autorizada? | Limite igual ao da ata de crédito em amostra de 30 clientes. | Conferência por amostragem pelo curador. |
| Consistência | O valor coincide entre registros e sistemas? | Razão social idêntica no sistema de gestão e na Receita Federal. | Comparação periódica entre fontes. |
| Atualidade | O valor está vigente para o uso? | Limite revisado nos últimos doze meses para 95% dos clientes ativos. | Indicador sobre a data de revisão. |
As três primeiras dimensões admitem imposição pelo esquema do banco de dados, tratada na seção de restrições de integridade. As três últimas dependem de processo e de pessoa: nenhuma restrição técnica verifica se o limite registrado corresponde ao limite aprovado, nem se a razão social coincide com a registrada na Receita Federal. A integridade referencial, que impede a referência a registro inexistente dentro do mesmo banco de dados, é garantida por restrição de chave estrangeira; a consistência entre bases distintas exige comparação periódica conduzida pelo curador. Essa divisão explica por que a governança de dados exige, em conjunto, modelagem e atribuição de responsabilidade.
A Lei nº 13.709/2018, Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais, disciplina o tratamento de dados relativos a pessoa natural identificada ou identificável. Em um sistema de gestão, dados pessoais aparecem no cadastro de clientes pessoa física, nos contatos de clientes e fornecedores, nos usuários do sistema e nos dados de empregados.
| Papel na LGPD | Definição | Na implantação do sistema de gestão |
|---|---|---|
| Titular | Pessoa natural a quem os dados se referem. | Cliente pessoa física, contato comercial, empregado. |
| Controlador | Quem toma as decisões sobre o tratamento. | A organização cliente do parceiro, que define finalidade e uso. |
| Operador | Quem trata os dados em nome do controlador. | Consultoria de implantação e fornecedor de hospedagem. |
| Encarregado | Canal de comunicação entre controlador, titulares e ANPD. | Designado pela organização; consultado sobre a carga de dados pessoais. |
Entre os princípios do art. 6º, quatro incidem diretamente sobre a modelagem e a carga: finalidade, pois cada dado pessoal coletado deve ter propósito declarado; necessidade, que limita o tratamento ao mínimo necessário; qualidade dos dados, que exige exatidão, clareza e atualização; e responsabilização e prestação de contas, que exige demonstrar a adoção de medidas eficazes.
A planilha de clientes com CPF enviada por correio eletrônico para montagem da carga, e a cópia integral da base de produção no ambiente de testes, são tratamentos de dados pessoais sem controle adequado. O modelo relacional deve identificar os atributos pessoais, e a matriz de governança deve registrar sua finalidade e a forma de proteção nos ambientes não produtivos, como mascaramento ou anonimização.
A arquitetura corporativa (AE) é a descrição estruturada de uma organização que relaciona sua estratégia, seus processos de negócio, suas informações, suas aplicações e sua infraestrutura tecnológica. Serve como modelo conceitual para análise, planejamento, projeto e implementação corporativos, conduzidos por meio de um programa extenso cujo propósito é executar a estratégia de forma consistente.
Para o profissional de Sistemas de Informação, a arquitetura corporativa é a ferramenta que conecta a governança corporativa e a governança de dados à realidade dos sistemas. Todos os sistemas corporativos e seus dados devem estar mapeados na arquitetura, com responsável, origem e dependências declarados. Sem esse mapa, a governança define políticas que ninguém consegue localizar nos sistemas, e a implantação de um novo sistema ocorre sem conhecimento do que ele substitui.
Representa o estado atual e o estado futuro da organização em vistas relacionadas entre si, e explicita a lacuna que a mudança deve fechar.
Declara, para cada sistema e para cada entidade de dados, quem responde, de onde o dado vem e quem o consome. É o inventário sobre o qual a auditoria e o conselho exercem supervisão.
Permite avaliar o efeito de substituir, integrar ou desativar um sistema antes de fazê-lo: que processos, dados, integrações e usuários são afetados.
A implantação de um sistema de gestão é um caso típico de transição arquitetural. O estado atual reúne sistemas legados, planilhas e integrações manuais. O estado futuro concentra processos e dados no sistema de gestão. A análise de lacunas relaciona cada elemento do estado atual ao seu destino: mantido, substituído, integrado ou desativado. Dados cujo destino não foi declarado tendem a ser carregados sem critério ou a permanecer em planilhas paralelas.
O legado de faturamento e as duas planilhas eram elementos do estado atual sem destino declarado. Uma análise de lacunas teria registrado que as três origens seriam desativadas após a carga e que o sistema de gestão passaria a ser a fonte autorizada do cliente, com a ata de crédito como origem do limite.
A arquitetura corporativa se organiza em quatro domínios, cada um com artefatos próprios. A relação entre os domínios permite rastrear uma decisão de negócio até o dado e a infraestrutura que a sustentam.
| Domínio | O que descreve | Artefatos típicos | Pergunta que responde |
|---|---|---|---|
| Negócio | Estratégia, capacidades, processos, papéis e estrutura organizacional. | Mapa de capacidades, modelo de processo em BPMN, matriz papel × processo. | Que processo concede o crédito e quem é seu dono? |
| Dados | Entidades de informação, relacionamentos, fontes, fluxos e responsáveis. | Modelo conceitual e lógico de dados, matriz entidade × sistema, matriz CRUD, catálogo. | Qual sistema é a fonte autorizada do cliente? |
| Aplicação | Sistemas, módulos, funções e integrações entre eles. | Mapa de aplicações, diagrama de interfaces, matriz aplicação × processo. | Que módulos leem e alteram o cadastro de clientes? |
| Tecnologia | Infraestrutura, plataformas, redes e ambientes. | Diagrama de implantação, inventário de servidores e ambientes. | Onde o dado é armazenado, copiado e protegido? |
A matriz CRUD relaciona entidades de dados a sistemas ou processos, indicando quem cria (C), lê (R), atualiza (U) e exclui (D) cada entidade. É o artefato mais direto para identificar a fonte autorizada: a entidade deve ter um único criador autorizado.
| Entidade | Sistema de gestão · vendas | Sistema de gestão · financeiro | Planilha comercial | Planilha do financeiro | Legado de faturamento | Fonte autorizada |
|---|---|---|---|---|---|---|
CLIENTE (estado atual) | — | — | C R U | C R U | C R U | Indefinida |
CLIENTE (estado futuro) | R | C R U | desativada | desativada | desativado | Sistema de gestão · financeiro |
PEDIDO_VENDA (estado futuro) | C R U | R | desativada | — | desativado | Sistema de gestão · vendas |
TITULO_RECEBER (estado futuro) | R | C R U | — | — | desativado | Sistema de gestão · financeiro |
A linha do estado atual expõe o problema do caso: as três origens criam e atualizam o cliente, e nenhuma é autorizada. Mais de uma letra C na mesma linha indica ausência de fonte autorizada única e admite a duplicidade. No estado futuro, a única letra C de cada entidade coincide com a fonte autorizada declarada.
Três referências dominam a prática de arquitetura corporativa e cumprem funções complementares: um método de desenvolvimento, uma taxonomia de artefatos e uma linguagem de notação.
O TOGAF, padrão mantido pelo The Open Group, estrutura o trabalho de arquitetura no ADM (Architecture Development Method), ciclo iterativo de fases orientado continuamente pela gestão de requisitos.
| Fase | Propósito | Relação com a implantação do sistema de gestão |
|---|---|---|
| Preliminar | Estabelecer princípios, papéis e governança da própria arquitetura. | Princípio de fonte única para dados mestres. |
| A — Visão da arquitetura | Definir escopo, partes interessadas e valor pretendido. | Caso de negócio e partes interessadas da Aula 6. |
| B — Arquitetura de negócio | Descrever processos e capacidades atuais e futuros. | Processos modelados nas sprints anteriores. |
| C — Sistemas de informação | Descrever a arquitetura de dados e de aplicações e suas lacunas. | Modelo de dados, matriz entidade × sistema e mapa de módulos. |
| D — Arquitetura de tecnologia | Descrever plataforma, infraestrutura e ambientes. | Ambientes de teste e produção e ferramenta de carga. |
| E — Oportunidades e soluções | Agrupar as mudanças em pacotes de trabalho. | Frentes de parametrização, integração e migração. |
| F — Planejamento da migração | Sequenciar a transição do estado atual ao futuro. | Plano de cutover e migração de dados da Sprint 4. |
| G — Governança da implementação | Verificar que a implementação respeita a arquitetura. | Testes integrados e critérios de aceite da carga. |
| H — Gestão da mudança da arquitetura | Tratar alterações na arquitetura vigente. | Controle de mudanças da Aula 5, após a virada. |
O modelo de Zachman é uma taxonomia que classifica os artefatos de arquitetura em uma matriz. As colunas correspondem a seis perguntas: o quê (dados), como (função), onde (rede), quem (pessoas), quando (tempo) e por quê (motivação). As linhas correspondem às perspectivas de quem os utiliza, do planejador ao operador. O modelo não prescreve método; indica se há lacuna na descrição da organização.
O ArchiMate, também mantido pelo The Open Group, é a linguagem de modelagem de arquitetura corporativa. Organiza os elementos em camadas de negócio, aplicação e tecnologia, e em aspectos de estrutura ativa (quem age), comportamento (o que é feito) e estrutura passiva (sobre o que se age). Objetos de dados pertencem à estrutura passiva da camada de aplicação, e sua relação com processos de negócio e com componentes de aplicação é o que a notação permite representar de forma padronizada.
O grupo não precisa produzir a arquitetura completa da organização. A implantação corresponde às fases C, F e G do ADM, e o recorte exigido na atividade representa as quatro camadas apenas para o processo escolhido, com notação simplificada inspirada no ArchiMate.
A figura a seguir representa, em quatro camadas, o processo de venda a crédito do caso. Cada camada responde a uma pergunta de governança, e a linha de fonte autorizada, na camada de dados, é o elemento que faltou na preparação da carga.
A leitura vertical do recorte produz a rastreabilidade exigida pela governança. A atividade de aprovar crédito, cuja dona é a diretoria financeira, é sustentada pelo módulo financeiro, que cria e atualiza a entidade CLIENTE no atributo de limite; essa entidade reside no servidor de banco de dados e é copiada para o ambiente de testes. Qualquer divergência no limite pode ser atribuída a uma camada e a um responsável.
No projeto do parceiro, a camada de aplicação corresponde aos módulos do SAP S/4HANA parametrizados pelo grupo, e a camada de dados, aos cadastros e documentos que esses módulos mantêm. O parceiro de negócios (business partner), por exemplo, é o dado mestre único que representa clientes e fornecedores e é lido por vendas, compras e finanças; a ferramenta de carga corresponde aos modelos do Migration Cockpit tratados na Aula 2.
A arquitetura de dados detalha-se em três níveis de modelo, cada um destinado a um público e a um tipo de decisão. O modelo relacional ocupa o nível lógico e é o ponto em que as regras de governança passam a ser declaradas em forma que o banco de dados impõe.
| Nível | Pergunta que responde | Quem valida | Decisão de governança associada |
|---|---|---|---|
| Conceitual | Que informações o negócio precisa manter e como se relacionam? | Dono do dado e curador. | Definição de cada entidade no glossário e seu responsável. |
| Lógico | Como as informações se estruturam sem redundância e com integridade? | Curador e arquiteto de dados. | Chaves, unicidade, obrigatoriedade e domínio de cada atributo. |
| Físico | Como as informações são armazenadas com desempenho e proteção? | Custodiante. | Controle de acesso, mascaramento, cópia de segurança e retenção. |
Em um sistema de gestão adquirido, como o SAP S/4HANA, o modelo físico é definido pelo fornecedor; o projeto não o redesenha e recorre apenas aos mecanismos de extensão previstos no produto. O grupo trabalha nos níveis conceitual e lógico para compreender os dados do parceiro, decidir a consolidação das origens e definir as regras de validação da carga, que então são aplicadas por parametrização, por campos obrigatórios e por verificação antes da importação.
O modelo entidade-relacionamento, proposto por Peter Chen em 1976, representa a informação por meio de três construções: entidades, atributos e relacionamentos. É a notação mais difundida para o nível conceitual e o objeto do autoestudo de Silberschatz indicado ao final.
| Construção | Definição | Exemplo no processo de venda a crédito |
|---|---|---|
| Entidade | Objeto do domínio distinguível dos demais, sobre o qual se mantém informação. | Cliente, pedido de venda, item. |
| Atributo | Propriedade descritiva da entidade, com domínio de valores. | CNPJ, razão social, limite de crédito. |
| Identificador | Atributo ou conjunto de atributos que distingue cada instância. | Código do cliente; CNPJ como identificador alternativo. |
| Relacionamento | Associação entre entidades. | Cliente emite pedido de venda. |
| Cardinalidade | Número máximo de instâncias associadas em cada lado: 1:1, 1:N ou N:N. | Um cliente emite muitos pedidos; cada pedido pertence a um cliente. |
| Participação | Obrigatoriedade da associação: total ou parcial. | Todo pedido tem cliente (total); nem todo cliente tem pedido (parcial). |
| Entidade fraca | Entidade cuja identificação depende de outra. | Linha do pedido, identificada pelo pedido e pelo número da linha. |
O modelo conceitual é o artefato a validar com o dono do dado, porque expressa regras de negócio: se um pedido pode ter mais de um cliente, se um cliente pertence a um único grupo, se o limite de crédito é do cliente ou do grupo. Cada uma dessas decisões muda o modelo lógico e as regras de carga.
O modelo relacional, formulado por E. F. Codd em 1970, representa os dados como relações: conjuntos de tuplas com os mesmos atributos, cada atributo associado a um domínio. Em linguagem corrente, a relação é a tabela, a tupla é a linha e o atributo é a coluna. A fundamentação matemática do modelo permite declarar restrições e consultar os dados de forma independente de como estão armazenados.
| Tipo de chave | Definição | Exemplo | Função de governança |
|---|---|---|---|
| Superchave | Conjunto de atributos que identifica univocamente cada tupla. | (cod_cliente, razao_social) | Conceito de base para as demais. |
| Chave candidata | Superchave mínima, sem atributo dispensável. | cod_cliente; cnpj | Identifica todas as formas legítimas de distinguir a entidade. |
| Chave primária | Chave candidata escolhida como identificador principal. | cod_cliente | Assegura unicidade e não nulidade do identificador. |
| Chave alternativa | Chave candidata não escolhida como primária. | cnpj, declarada como única | Impede a duplicidade da entidade por identificador natural. |
| Chave estrangeira | Atributo que referencia a chave primária de outra relação. | pedido_venda.cod_cliente | Impede transação que refira entidade inexistente. |
| Construção do modelo ER | Correspondência relacional | Regra de mapeamento |
|---|---|---|
| Entidade forte | Relação | Cada atributo simples torna-se coluna; o identificador torna-se chave primária. |
| Identificador alternativo | Restrição de unicidade | A chave candidata não escolhida recebe UNIQUE. |
| Relacionamento 1:N | Chave estrangeira | A chave primária do lado 1 é incluída na relação do lado N. |
| Relacionamento 1:1 | Chave estrangeira única | A chave de um lado é incluída no outro, com restrição de unicidade. |
| Relacionamento N:N | Relação associativa | Nova relação com as duas chaves estrangeiras, que compõem sua chave primária. |
| Entidade fraca | Relação com chave composta | Chave do proprietário somada ao discriminador parcial. |
| Atributo multivalorado | Relação separada | Uma tupla por valor, com chave estrangeira para a entidade. |
| Participação total | Chave estrangeira não nula | A coluna de referência recebe NOT NULL. |
Em notação textual, com chave primária sublinhada por convenção e aqui indicada por PK:
GRUPO_CLIENTE (cod_grupo PK, descricao, prazo_padrao_dias)CLIENTE (cod_cliente PK, cnpj UK, razao_social, limite_credito, dt_revisao_credito, cod_grupo FK → GRUPO_CLIENTE)ITEM (cod_item PK, descricao, unidade, ncm)PEDIDO_VENDA (num_pedido PK, cod_cliente FK → CLIENTE, dt_emissao, status, valor_total)ITEM_PEDIDO (num_pedido, num_linha PK, num_pedido FK → PEDIDO_VENDA, cod_item FK → ITEM, quantidade, preco_unitario)A escolha do código interno como chave primária é prática corrente e legítima, porque o identificador natural pode mudar ou estar ausente na criação. A falha do legado consistiu em não declarar o CNPJ como chave alternativa. Sem essa restrição, o banco de dados aceitou três tuplas para a mesma pessoa jurídica.
Restrições de integridade são condições declaradas no esquema que todo estado do banco de dados deve satisfazer. Toda operação que as violaria é rejeitada. Cada restrição transforma uma regra de qualidade em controle preventivo, executado na entrada do dado e não na auditoria posterior.
CREATE TABLE grupo_cliente (
cod_grupo VARCHAR(10) PRIMARY KEY,
descricao VARCHAR(60) NOT NULL,
prazo_padrao_dias INTEGER NOT NULL CHECK (prazo_padrao_dias BETWEEN 0 AND 180)
);
CREATE TABLE cliente (
cod_cliente VARCHAR(15) PRIMARY KEY,
cnpj CHAR(14) NOT NULL UNIQUE,
razao_social VARCHAR(100) NOT NULL,
limite_credito NUMERIC(15,2) NOT NULL CHECK (limite_credito >= 0),
dt_revisao_credito DATE NOT NULL,
cod_grupo VARCHAR(10) NOT NULL REFERENCES grupo_cliente (cod_grupo)
);
CREATE TABLE item (
cod_item VARCHAR(20) PRIMARY KEY,
descricao VARCHAR(100) NOT NULL,
unidade VARCHAR(6) NOT NULL,
ncm CHAR(8) NOT NULL
);
CREATE TABLE pedido_venda (
num_pedido INTEGER PRIMARY KEY,
cod_cliente VARCHAR(15) NOT NULL REFERENCES cliente (cod_cliente),
dt_emissao DATE NOT NULL,
status VARCHAR(12) NOT NULL
CHECK (status IN ('ABERTO', 'APROVADO', 'FATURADO', 'CANCELADO')),
valor_total NUMERIC(15,2) NOT NULL CHECK (valor_total >= 0)
);
CREATE TABLE item_pedido (
num_pedido INTEGER NOT NULL REFERENCES pedido_venda (num_pedido),
num_linha SMALLINT NOT NULL,
cod_item VARCHAR(20) NOT NULL REFERENCES item (cod_item),
quantidade NUMERIC(12,3) NOT NULL CHECK (quantidade > 0),
preco_unitario NUMERIC(15,2) NOT NULL CHECK (preco_unitario >= 0),
PRIMARY KEY (num_pedido, num_linha)
);
| Restrição | Categoria | Regra de governança que impõe | Dimensão de qualidade |
|---|---|---|---|
PRIMARY KEY | Integridade de entidade | Toda tupla tem identificador único e não nulo. | Unicidade |
UNIQUE (cnpj) | Chave alternativa | Uma pessoa jurídica corresponde a um único cadastro de cliente. | Unicidade |
NOT NULL | Obrigatoriedade | Não existe cliente sem limite de crédito nem sem data de revisão. | Completude |
CHECK | Integridade de domínio | Limite, quantidade e preço respeitam faixa; o status pertence à lista controlada. | Validade |
REFERENCES | Integridade referencial | Não há pedido de cliente inexistente nem linha de item inexistente. | Integridade referencial (distinta da consistência entre bases) |
As restrições do esquema verificam a forma do dado. Nenhuma restrição verifica se o limite de R$ 50 mil corresponde à ata do comitê de crédito, nem se a data de revisão reflete uma revisão efetivamente realizada. Exatidão, consistência entre bases e atualidade dependem do dono do dado, que aprova o valor, e do curador, que acompanha a data de revisão e compara as fontes. Da mesma forma, os dígitos verificadores do CNPJ exigem rotina de validação: no formato alfanumérico, cada uma das doze primeiras posições é convertida no código ASCII do caractere subtraído de 48 antes do cálculo por módulo 11, operação que a restrição CHECK simples não executa na maior parte dos sistemas gerenciadores.
A consulta a seguir, executada sobre a planilha consolidada antes da carga, detecta a violação que o esquema teria impedido:
SELECT cnpj, COUNT(*) AS cadastros, MIN(limite_credito) AS menor, MAX(limite_credito) AS maior
FROM carga_cliente
GROUP BY cnpj
HAVING COUNT(*) > 1;
Normalização é o processo de decompor relações para eliminar redundância e as anomalias que dela decorrem. Uma relação não normalizada registra o mesmo fato em várias tuplas; quando uma delas é atualizada e as demais não, o banco de dados passa a conter versões concorrentes do mesmo fato.
Não se consegue registrar um cliente novo sem que ele tenha um pedido, porque os dados do cliente só existem nas linhas de pedido.
A alteração do limite de crédito exige atualizar todas as linhas em que ele se repete; a atualização parcial produz divergência.
A exclusão do único pedido de um cliente apaga também a informação cadastral do cliente.
A planilha montada pela equipe do caso reunia as linhas das três origens, uma por item de pedido histórico, com as colunas num_pedido, num_linha, cnpj, razao_social, telefones, cod_grupo, prazo_padrao_dias, limite_credito, cod_item, descricao_item e quantidade. As formas normais indicam como decompô-la.
| Forma normal | Exigência | Violação na planilha | Decomposição |
|---|---|---|---|
| 1FN | Todo atributo é atômico; não há grupo repetitivo nem atributo multivalorado. | telefones contém "11 3333-0000; 11 9999-0000". | Relação TELEFONE_CLIENTE (cod_cliente, telefone), uma tupla por número. |
| 2FN | Está em 1FN e todo atributo não chave depende da chave primária inteira, e não de parte dela. | Com chave (num_pedido, num_linha), cnpj, razao_social, limite_credito e cod_grupo dependem só de num_pedido. | Relação PEDIDO_VENDA com os atributos que dependem de num_pedido; em ITEM_PEDIDO restam cod_item, descricao_item e quantidade. |
| 3FN | Está em 2FN e não há dependência transitiva de atributo não chave em relação à chave. | Em PEDIDO_VENDA, cnpj → razao_social, limite_credito, cod_grupo; em seguida, cod_grupo → prazo_padrao_dias. Em ITEM_PEDIDO, cod_item → descricao_item. | Relações CLIENTE, GRUPO_CLIENTE (cod_grupo, prazo_padrao_dias) e ITEM (cod_item, descricao). |
A forma normal de Boyce-Codd (FNBC) reforça a 3FN ao exigir que todo determinante seja chave candidata. Para os modelos da atividade, a 3FN é o nível exigido.
Relatórios analíticos e bases de consulta podem repetir dados para ganho de desempenho. A desnormalização é aceitável quando a relação desnormalizada é derivada da fonte normalizada e nunca atualizada diretamente. A planilha do caso invertia essa ordem: era desnormalizada e servia de fonte.
Cada origem trazia o limite de crédito registrado na respectiva fonte — R$ 50 mil, R$ 120 mil e R$ 200 mil —, repetido em todas as linhas de pedido do cliente. A decomposição em 3FN admite uma única tupla de CLIENTE por CNPJ e, com isso, impede que os três valores coexistam no sistema novo. A escolha do valor que ocupa essa tupla não decorre da normalização: cabe à regra de sobrevivência aprovada pelo dono do dado, descrita na seção 8.
Um modelo de dados é adequado quando responde às perguntas que o negócio precisa fazer. O autoestudo do Google sobre perguntas para tomada de decisão baseada em dados propõe formulá-las segundo o critério SMART: específicas, mensuráveis, orientadas à ação, relevantes e delimitadas no tempo.
| Pergunta vaga | Pergunta SMART | Decisão que sustenta |
|---|---|---|
| Os clientes estão pagando? | Quais clientes do grupo varejo tiveram títulos vencidos há mais de 30 dias no último trimestre? | Revisão de limite de crédito dos clientes do grupo. |
| O crédito está sob controle? | Quais clientes tiveram pedidos aprovados cujo total em aberto excedeu o limite de crédito no último mês? | Bloqueio de novos pedidos e escalonamento à diretoria financeira. |
| O cadastro está bom? | Qual o percentual de clientes ativos com data de revisão de crédito anterior a doze meses? | Priorização da agenda de revisão pelo curador. |
A segunda pergunta é respondida pelo modelo da seção 18 com a consulta a seguir. A possibilidade de escrevê-la verifica que as relações, as chaves e os atributos necessários existem.
SELECT c.cod_cliente, c.razao_social, c.limite_credito,
SUM(p.valor_total) AS total_em_aberto
FROM cliente c
JOIN pedido_venda p ON p.cod_cliente = c.cod_cliente
WHERE p.status = 'APROVADO'
AND p.dt_emissao >= CURRENT_DATE - INTERVAL '30' DAY
GROUP BY c.cod_cliente, c.razao_social, c.limite_credito
HAVING SUM(p.valor_total) > c.limite_credito;
Com três cadastros para o mesmo CNPJ, a consulta distribuiria os pedidos entre três códigos, compararia cada parcela a um limite distinto e poderia não apontar exposição alguma. A qualidade do dado condiciona a validade da decisão tomada a partir dele.
A Sprint 4 exige a estratégia de cutover e os testes integrados. A migração dos dados mestres é uma das atividades de maior risco da virada, e os artefatos deste encontro fornecem os critérios que a tornam verificável.
| Etapa da carga | Artefato do encontro que a sustenta | Critério de aceite |
|---|---|---|
| Inventário das origens | Recorte da arquitetura e matriz entidade × sistema | Toda entidade tem origens listadas e fonte autorizada declarada. |
| Consolidação e limpeza | Regras de sobrevivência por atributo | Divergências tratadas segundo regra aprovada pelo dono do dado. |
| Transformação para o modelo de importação | Modelo relacional normalizado | Nenhuma violação de chave, unicidade, obrigatoriedade ou domínio. |
| Carga em ambiente de testes | Matriz de governança e tratamento de dados pessoais | Dados pessoais mascarados; contagem de registros conciliada com a origem. |
| Validação | Regras de qualidade mensuráveis | Indicadores dentro do limiar; amostra conferida pelo curador. |
| Aprovação da carga em produção | Matriz de responsabilidades | Aceite registrado pelo dono do dado antes da virada. |
| Teste integrado | Perguntas de negócio | O processo de ponta a ponta produz a resposta esperada com os dados carregados. |
A conciliação de contagens constitui o controle mínimo de qualquer carga: o número de registros válidos na origem consolidada, o número importado e o número rejeitado devem fechar, e cada rejeição deve ter motivo registrado. Carga sem conciliação não admite demonstração de completude.
Atividade em grupo de projeto, com quarenta e dois minutos de duração. Cada grupo escolhe um processo do parceiro já modelado nas sprints anteriores e produz três artefatos encadeados sobre os dados desse processo, submetidos a verificação cruzada por outro grupo.
| Tempo | Etapa | Produto |
|---|---|---|
| 5 min | Escolha do processo e formulação das perguntas | Processo delimitado, com início e fim, e duas perguntas de negócio no formato SMART que o modelo deverá responder. |
| 12 min | Recorte da arquitetura corporativa | Diagrama em quatro camadas com dono por atividade, módulos, entidades, fonte autorizada e origens da carga. |
| 15 min | Modelo relacional e matriz de governança | Esquema lógico de quatro a seis relações em 3FN, com restrições, e matriz de governança por relação. |
| 10 min | Verificação cruzada | Parecer do grupo verificador sobre os três artefatos, com os dois testes aplicados. |
NOT NULL em todo atributo exigido pelo processo.CHECK ou lista controlada nos atributos com faixa ou valores admitidos.| Relação | Dono | Curador | Custodiante | Regra de qualidade (dimensão e limiar) | Dado pessoal e finalidade | Critério de aceite da carga |
|---|---|---|---|---|---|---|
CLIENTE | Diretoria financeira | Analista de crédito | Equipe de sistemas | Unicidade: zero CNPJ repetido | E-mail do contato; cobrança | Relatório de duplicidade vazio e contagem conciliada |
ITEM | Gerência de suprimentos | Analista de cadastro | Equipe de sistemas | Completude: 100% com NCM | Não se aplica | Amostra de 30 itens conferida pelo curador |
Os grupos trocam os três artefatos. O grupo verificador aplica dois testes e registra o resultado em parecer breve.
| Critério | Pontos | O que se espera |
|---|---|---|
| Recorte da arquitetura | 2 | As quatro camadas estão relacionadas, e todo dado mestre tem uma única fonte autorizada. |
| Modelo relacional | 3 | Chaves corretas, cardinalidades coerentes com o processo e ausência de violação da 3FN. |
| Restrições de integridade | 2 | O modelo rejeita o registro duplicado e a referência a dado inexistente. |
| Matriz de governança | 2 | Responsáveis nomeados por cargo, regra com dimensão e limiar e critério de aceite verificável. |
| Perguntas de negócio | 1 | Perguntas SMART respondidas pelo modelo, conforme o teste do verificador. |
A política de crédito é aprovada pelo conselho, mas não há procedimento de aprovação nem trilha no sistema. O princípio existe no documento e não admite verificação na operação.
A equipe de sistemas é tratada como responsável pelo conteúdo do cadastro. O custodiante guarda o dado, mas não tem legitimidade para decidir o limite de crédito de um cliente.
O mapa de aplicações é produzido sem a camada de dados. Sabe-se que sistemas existem, mas não qual deles é a fonte autorizada de cada entidade.
A planilha consolidada é importada como está, com fatos repetidos em várias linhas. As divergências entre repetições tornam-se versões concorrentes no sistema novo.
O código interno é chave primária e o identificador natural não recebe restrição de unicidade. O banco aceita a mesma entidade várias vezes com códigos diferentes.
A matriz declara que o cadastro deve estar completo e correto. Sem dimensão, limiar e meio de verificação, a regra não pode ser aprovada nem reprovada na carga.
Os quatro materiais a seguir compõem o autoestudo do encontro. O primeiro sustenta o bloco de governança; os três seguintes sustentam a modelagem relacional e as perguntas de negócio exigidas na atividade.
PRADO, Roberta N. Governança Corporativa. v. III. São Paulo: Saraiva, 2023.
O que extrair: a origem do conceito na separação entre propriedade e controle e os princípios que orientam a prestação de contas, base das seções 2 a 5.
SILBERSCHATZ, Abraham. Sistema de Banco de Dados. Rio de Janeiro: GEN, 2020. Capítulo sobre projeto com o modelo E-R.
O que extrair: entidades, atributos, cardinalidade, participação, entidade fraca e redução do diagrama E-R a esquemas relacionais, base das seções 17 e 18.
Referência sobre diagrama entidade-relacionamento, acompanhada do exercício de modelar a estrutura de dados de um sistema de gestão simplificado.
O que extrair: o exercício resolvido na perspectiva relacional, com chaves primárias, estrangeiras e alternativas declaradas e o modelo levado à 3FN, conforme as seções 18 a 20.
Curso sobre formulação de perguntas eficazes e uso de dados na tomada de decisão, ao longo da semana.
O que extrair: o critério SMART de formulação de perguntas e a relação entre pergunta, dado necessário e decisão, aplicados na seção 21 e na primeira etapa da atividade.
O exercício de modelagem do autoestudo da Miro corresponde, em escala reduzida, ao segundo artefato. O grupo que chega ao encontro com esse exercício resolvido na forma relacional dedica integralmente os quinze minutos da etapa ao processo do parceiro.